Bem-haja Sr. Lopes
Ontem – na amena cavaqueira de um jantar demorado – a conversa derrapou, inevitavelmente, para o discurso de tomada de posse que eu ainda estou para saber qual era.
Estava preparada para dar largas à minha indignação por ter visto um tipo a comer vírgulas na leitura, mastigar palavras sem entoação e cortar frases a meio delas, descartando folhas (obviamente sobejas) num vaivém desnorteado de punho ornado com pulseira de coiro a que não faltava a medalhinha.
Um amigo – que é da cor do dito mas de tonalidade distinta – cortou-me a palavra com um sorriso irónico, fino e tranquilíssimo (de receita exclusivamente alentejana), dizendo: “Francisca, isso não é iliteracia. Isso é poder de síntese”.
Calou-me. Fez-se luz e abateu-se sobre mim um indizível arrependimento.
Fica aqui, pois, registado o meu mais humilde pedido de desculpas ao homem da pulseira pelo juízo precipitado em que caí. Já agora, e por consequência, ao “mea culpa” devo acrescentar a profunda gratidão por nos ter poupado à leitura integral de um discurso que era, quase com certeza, muito chato e que, de certeza, não interessava a ninguém.
Utilizando o dialecto camarário, “benhaja” por isso.
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